e eventualmente
eu vou te contar onde eu estive por todo esse tempo em que não estive aqui. e vou te contar como cada pequena escolha do dia fez sentido no momento em que você sorriu se afastando de mim naquela noite. e como o 'tudo-está-na-natureza-encadeado-e-em-movimento' me veio à mente bem naquela hora, levado rapidamente por algum fluxo de álcool e euforia de modo que só lembrei que pensei nisso uns 3 dias depois. e vou contar que foi esse verso repetindo em primeiro plano que tapou minha atenção da pergunta que você fez. e então eu ri. não porque a pergunta foi absurda, como vc encabulou depois. mas porque eu estivesse planando numa corrente de pensamentos involuntários na joana e no caldeirão de veneno e em como é engraçado o coentro combinar tanto com a tristeza e em como todas as cores dessa cena são lavadas em tons de marrom e oliva e em como o 'pote-até-aqui-de-lágrima' era cla-ra-mente o caldeirão de fermento da joana e em como eu não tinha percebido isso antes porque tudo parecia tão claro naquela hora. e eu vou te contar talvez de todos os caminhos que me levaram até debaixo daquela luz laranja aquele dia. desde uns 20 anos antes. e vou contar das férias na praia, uma de tantas, na qual meu ombro esquerdo ganhou uma sarda pela primeira vez. e como eu fiquei feliz por ter ido à praia todas aquelas férias, só de ver você achando graça de um jeito tão bonito de como as sardas do meu ombro formavam um desenho que pra vc era parecido com a estampa da tua camiseta. e vou contar como eu odiava andar de bicicleta e vou te educar no vocabulário das minhas gírias e na sintaxe das minhas escolhas. e vou contar como um trem pode descarrilar pra dois lados da estrada, ao mesmo tempo. e vou mostrar o caminho das cicatrizes que se podem ver a olho nu e devagar você vai entender que existem tantas outras cicatrizes que no fundo são iguais às tuas e de todo mundo, mas que eu tratei com vinagre e veneno e por isso a carne granulada da regeneração me impede de realizar certas manobras e algumas coisas tão fáceis de se ver por aí, pra mim são seis meses de recuperação porque na maioria das vezes sempre tem uns pontos que arrebentam e uma parte do corte que abre e sangra de novo e todos esses tormentos que passam os que cultivaram os ferimentos das guerras.
e se tudo sair como está escrito nos livros que têm um final feliz, talvez um dia eu te conte que há muito eu não via nada mais bonito que essas tuas maneiras desajeitadas, que na verdade eu odeio os autores russos e que pela primeira vez eu lamentei ter dentro de mim o peso de tanto passado. não pelo passado em si (porque já foi suficientemente velado) mas por ele não me permitir no hoje outra escolha senão ir embora.
e no meio de alguns risos e fios de cabelo, você vai dizer que eu sou tão boba e sem ter prestado atenção em absolutamente nada do que eu disse, vai continuar brincando de constelação nas sardas de sol de todas as memórias estampadas no meu ombro.