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e ao colocar, pela terceira vez, um ponto final no manuscrito da nossa história
eu vi que o que tinha ficado depois da grafia torta do teu nome
era o et cetera incerto da nossa eterna reticência.
vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
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15:25
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se fosse pra escolher um dia da semana pra se lembrar dela, escolheria o sábado. se fosse pra escolher um horário, seriam as manhãs. se fosse pra escolher uma condição do céu, aquele de azul tão-azul com algumas poucas nuvens bem desenhadas de parecer algodão doce.
e em todas as manhãs de sábado que o surpreendesem com aquele céu tão delicado, ele ia parar a vida inteira e respirar fundo abrindo caminho por entre tempos e espaços, como quem adora um deus que não tem nome. ele ia puxar dos emaranhados da memória o fio de cada perfume, de cada som e de cada movimento de cada músculo do corpo dela, e ia tecer com fios dourados a imagem de cada lembrança, com o cuidado de quem tece uma veste pra uma rainha.
e ele ia lembrar que nas manhãs como aquela, ela acordava natural e pontualmente às nove-e-vinte-e-poucos (porque segundo ela, dormir mais era um desperdício de vida e dormir menos era um desperdício do caráter-feriado que possuem os sábados). e ia lembrar que ela se demorava na cama ainda alguns instantes, como quem traz com algum custo a sanidade de volta de um sonho que ela não se atreveria a contar. e ela pedia pra que ele abrisse a janela e descrevesse pra ela a condição do céu.
se nublado, ela pedia com aquele jeito gateado que ela só tinha pelas manhãs, pra que ele voltasse à cama, mas que antes preparasse torradas com mel enquanto ela escovava os dentes e se livrava do hálito amanhecido. e assim que eles se reencontravam, ela o enlaçava com a pernas semi-despertas e à partir daí, as torradas com mel duravam para sempre, intactas na mesa de cabeceira. quando eles abriam a janela de novo, o céu já tinha mudado, não era mais manhã e o sábado já quase se acabava.
se solarado, ela contraía cada parte do corpo de que tinha conhecimento e espreguiçosamente se levantava para dar-lhe um abraço hermético, no qual a quase total superfície do corpo dela pressionava o corpo dele, com a urgência e gratidão da criança perdida em supermercado quando reencontra a mãe. e ela o arrastava para o banho e lavava o seu cabelo, sem nem adiantar qualquer investida da parte dele. então ela o arastava saltitanto pra algum dos cantos da cidade que eram dela. e ele sempre se surpreendia com a forma que ela sempre tinha um truque novo, para cada manhã de cada sábado de sol.
e ele ia lembrar de tudo como quem conta uma história. e ia se agarrar-menino àquelas lembranças que se tornavam tão fortes à medida em que ele se dedicava em puxá-las. então ia fechar os olhos e se maldizer um tanto. depois, ia sacudir a cabeça pra que as sensações evocadas se soltassem do corpo dele e o deixassem seguir o dia. e ia desviar o olhar como quem não quer ver a pior cena do filme de horror. nisso, voltaria o olhar pra cima e veria que o céu já tinha mudado.
quase não era mais manhã e ele estava atrasado.
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22:10
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::::: m, reinvento, terceira pessoa
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::::: internet, na estante
às vezes eu preciso tirar a casquinha daquela ferida outrora purulenta. eu preciso abrir e ver o sangue jorrar. preciso sentir a pontada aguda da dor bem na base da minha espinha irradiar por cada célula do meu sistema nervoso até a ponta dos meus dedos endurecerem e os olhos se apertarem, encavalando as pálpebras e os dentes rangerem, tensionando toda a atmosfera que envolve o domínio do meu corpo.
porque se já essa ferida esteve aqui por tanto tempo, o hábito se acostumou com o dever do dreno, o tato se acostumou com a irregularidade do toque, o humor se acostumou com a constante da dor, o amor se acostumou com a presença do medo.
um dia será preciso deixar que se feche. um dia será preciso parar. parar de uma vez de alimentar os monstros que nos devoram. aceitar a pele que vem cerco-fechando a carne-viva e abraçar a calmaria da cura.
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11:07
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::::: daqui de dentro, m
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16:25
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::::: cinema, na estante
as flores não brotam da noite pro dia, ele uma vez me disse com aquele ar de deboche que lhe garantia uma sabedoria que talvez ele não tivesse. isso foi antes da vida ser professora e me ensinar com quantas angústias se faz uma espera.
e essa minha espera me parece agora tão grande, tão longa e de tantas primaveras que flores poderiam ter brotado e morrido e brotado de novo e neste exato momento, eu teria uma margarida branquinha, geladinha de orvalho, se espreguiçando devagar pra se livrar das manhã que são tão difíceis e tão frias.
e então eu pergunto pra quem viveu sempre no meio e pra quem foi educado na escola das escolhas que são somente agradáveis. eu pergunto se é só de espera que brotam as flores. e se a espera fará desse solo amarelado de bílis e salgado de choro um terreno fértil no qual sobreviva alguma coisa que não as folhas ásperas do boldo.
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18:06
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::::: daqui de dentro, m
he venido al desierto pa' reírme de tu amor
que el desierto es más tierno y la espina besa mejor
he venido a este centro de la nada pa' gritar
que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar
he venido encendida al desierto pa' quemar
porque el alma prende fuego cuando deja de amar
porque el alma prende fuego
porque el alma prende fuego cuando deja de amar
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18:29
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::::: música, na estante